quarta-feira, agosto 30, 2006

A Ira dos Justos

Aconteceu terça-feira entre 13:00 e 16:oo hrs. Percebemos exatamente as 16:oo hrs, quando a Samara abria o carro - que se encontrava na garagem - a cumprir afazeres. Só ouvi a exclamação: "roubaram o CD Player". De imediato me vem ao juízo o complemento: "e a Shelter que estava no banco de trás".
Por volta de 13:00hrs tinha apanhado a guitarra Stratocaster Shelter na casa do João Neto com o fim de leva-la à Universidade de noitinha e repassá-la ao Diego que iria fazer (e vai) a guitarra de efeitos na música "Índios" da Legião Urbana (mais uma no repertório do Arlequim). Deixei-a no banco traseiro do Corsa pois dali a horas teria de ir ao Campus. Pois bem. O filho da puta (ou os filhos da puta), arrombou a porta do carro e fez uma limpeza. A guitarra foi de brinde. De imediato retorno no tempo, vinte anos atrás quando, ainda iniciando minha carreira como professor de História, comprei - via consórcio - minha hondinha 125. Faltanto ainda 8 ou 10 prestações para quitá-la, os "donos do alheio" a levaram para um passeio e não mais devolveram. Lembro-me muito bem do desespero que me invadiu na época. A motocicleta era um instrumento de trabalho. Ela me possibilitava aulas em 3 ou 4 diferentes colégios, numa carga horária insana, única forma de manter um salário menos vergonhoso como professor do Ensino Médio (isso lá em Mossoró). Era um garoto esperneando pra encontrar seu lugarzinho ao sol. Teria de continuar a busca, desta feita sem moto.
A sensação que me invadiu naqueles tempos - e que agora se repete - é o da mais profunda e amarga indignação. É muito difícil exercer aquele negócio da "outra face". Fica cada vez mais "troncho" manter uma consciência social nesse país de larápios de todos os níveis. Mas tudo bem. Que se leve a guitarra... Que se afane o player. Não serei hipócrita em declinar aqui meu sentimento de piedade para com o carinha (ou os carinhas) que me fizeram o "rapa". Também não nutro ódio. Desprezo, sim. O mais puro e decantado desprezo dedico ao pilantra. Sei que por esses dias o animal deve estar metido em algum "cafôfo", no canto da parede a guitarra do Arlequim (comprada com dinheiro suado dos seus músicos) e, ainda embrulhado nos fio cortados, o meu player. Sei que - como um rato - o néscio vai pôr a cara pra fora, olhar de um lado pra outro antes de trilhar suas vielas e becos. Vai sentar em algum "mosqueiro", tomar uma "meiota" de cachaça e fumar um "baseado" enquanto espera o destino de todos eles: ir em cana ou ser morto. Enquanto isso - mesmo sem o player, mesmo sem a guitarra, ainda tendo de aguentar as pressões que se exercem sobre a Classe Média - posso sair a hora que quero (com cuidado... ratos mordem). Posso sentar-me onde bem me der na telha. Se tudo calhar bem, posso até chegar a uma idade avançada a ponto de assistir ao concerto de rock onde se apresentará meu(a) neto(a), filho(a) da minha filha, Maya Jordana. E talvez, com a graça de todos os deuses, morrer em paz com o mundo e comigo sabendo que deixei mais coisas boas que ruins em minha esteira.
Seria petulância de minha parte se arvorar "um justo". Não nos cabe esse juízo. Essa é uma prerrogativa dos que conosco convivem e das divindades encarregadas dos pesos e medidas no Juízo Final. Mas - nesse momento - me dou o direito de proclamar minha ira. Corrosiva como ela só, comendo pelas beiras o que, tempos antes, se constituia uma belíssima e utópica noção de Exclusão Social.

Um comentário:

Lucas disse...

Que grandessíssima merda, caralho, porra... roubaram quando essa guitarra que tu num me contou? Affyyy... uma verdadeira lástima, ainda bem que você é bem novim e rico e pode suplantar essa perda...heheheheheheehe
Depois quero saber o desenrolar dessa história. até +